sexta-feira, 20 de janeiro de 2017

35 anos - A greve dos pilotos


Tudo havia começado ainda em 1981. A guerra entre FISA e FOCA parecia ter chegado ao fim enquanto o retorno de um grande campeão agitava as manchetes de todo mundo: Niki Lauda estaria de volta após seu abandono em 1979! Depois de meses acompanhando o interessante trabalho de um jovem Ron Dennis com o primeiro carro construído totalmente de fibra de carbono, o austríaco se curvou ao projeto e assinou o contrato para substituir Andrea de Cesaris, tornando-se, novamente, companheiro de John Watson.

Porém, o hype criado pelo retorno do bicampeão estaria perto de acabar. Como foi dito, tudo começou ainda em 1981, quando Lauda recebeu em sua casa uma carta da FISA sobre a nova regulamentação das super-licenças. Esta, se bem lida, apresentava novas cláusulas que proibiam os pilotos de mudarem de equipe no meio da temporada, sendo obrigados a ficarem no mesmo time por três anos. Além disso, não poderiam "causar danos aos interesses materiais e morais do campeonato do mundo". Basicamente, não poderiam mais criticar a FISA. Agora, equipes e dirigentes detinham maior poder sobre os pilotos.

Chegando ao hemisfério sul, onde o calor do verão era infernal, já em 1982, Lauda teria uma triste surpresa. Quase todos os pilotos, com exceção dele próprio, de Didier Pironi, Gilles Villeneuve, Jacques Laffite, Andrea de Cesaris, René Arnoux e Bruno Giacomelli, haviam assinado o acordo. E, para tentar resolver o erro, Lauda conversou com o presidente da GPDA, naquela altura Pironi, para que este fosse a Comissão da FIA tentar resolver o problema. Infelizmente as coisas não saíram como planejado, e a FISA planejava resolver isso apenas em abril pelo Comitê Executivo. O clima azedou de vez...

"Nós não vamos assumir o volante até que uma solução aceitável seja encontrada", dizia Didier Pironi naquele dia 18 de janeiro de 1982. Com as coisas indo de mal a pior, as chances de haver uma greve de pilotos cresceu.

E, na manhã de quarta-feira, dia 20, todos os carros estavam preparados nos boxes quando um ônibus passou pelo paddock levando 30 dos 31 competidores inscritos para a prova. Jochen Mass decidiu ficar longe da confusão, e seria o único homem a entrar na pista naquele dia, quando organizadores e dirigentes correriam para tentar resolver um gigantesco problema a tempo.


Depois de Laffite acabar com a única investida da organização, que colocou uma Kombi na frente do ônibus, os pilotos foram comboiados por jornalistas do mundo inteiro até o Hotel Sunnyside em Joanesburgo. Após chegarem ao local, Pironi retornaria à Kyalami para conversar com Jean-Marie Balestre, presidente da FISA, e Bernie Ecclestone, chefe da FOCA.

Os pilotos estavam relutantes, sobretudo os mais jovens. Keke Rosberg e Manfred Winkelhock, um que finalmente teria bom carro em mãos e outro que fazia sua estreia, eram os maiores opositores da ação, mas ainda sim estariam presentes naquele saguão. Há 35 anos atrás...

A ida de Pironi para Kyalami se mostrou desastrosa. Naquela noite, Balestre baniria todos os 30 pilotos que participaram da greve e planejava adiar em uma semana o GP da África do Sul, para que as equipes contratassem 30 novatos! Enquanto o francês age, Bernie Ecclestone prefere caçar um culpado, achando em Mark McCormack um nome que lhe agradasse. Aquele senhor americano tinha acabado de se tornar manager de Alain Prost e Didier Pironi, principal líder da greve. Estaria McCormack manipulando os pilotos? Para Ecclestone, sim...

Com a notícia do banimento permanente, a preocupação é generalizada entre os jovens. Mas, logo, os pilotos mais experientes conseguem reverter a situação e criar um clima único e que jamais se repetiria na história da categoria. Gilles Villeneuve e Elio de Angelis revezavam no piano, Slim Borgudd demonstrava sua habilidade na bateria, Bruno Giacomelli desenhava uma sátira onde ensinava fazer uma bomba e Niki Lauda (ele mesmo!) fazia um show de stand-up. Uma noite única na história... e não acabou por aí.

Jackie Oliver, um dos chefes da Arrows, com a ajuda de dois policiais, tentou arrombar a porta do local onde os pilotos estavam dormindo. A solução foi colocar o que dava na frente da porta para que nenhum daqueles três homens conseguisse entrar. Não havia lugar para todos no hotel, e, assim, muitos deles tiveram de dormir no chão, deitados ao lado de rivais e companheiros. Até mesmo Nelson Piquet parece ter ficado na dúvida se dormiria ou não ao lado de Carlos Reutemann, seu rival na disputa pelo título do ano anterior.

Que noite e que madrugada...


Apesar dos eventos "de ontem", que uniram ainda mais o grid, tivemos um caso de deserção! Alex Hawkridge, gerente da Toleman, convenceu Teo Fabi a fugir. Na manhã da quinta-feira, dia 21, o italiano falou que iria no banheiro e não voltou mais. "Ele havia fugido como uma galinha. Perdeu nosso respeito não por ter decidido ir embora, e sim porque foi direto a Ecclestone e Balestre para falar o que havíamos discutido" afirmou Keke Rosberg, que antes era um dos principais críticos do ato. Mesmo assim, a greve está mais forte do que nunca.

Às 8:15h, Niki Lauda deu uma entrevista dizendo que Pironi voltara ao autódromo para o ultimato com Balestre e Ecclestone. Uma hora e quarenta e cinco minutos depois, a vitória dos pilotos foi anunciada pelo presidente da GPDA. Os artigos que causaram a greve seriam reescritos, e os ases passariam a ter os mesmos direitos das equipes.

A FISA havia cedido, mas e a FOCA? Os garagistas acabaram sendo obrigados a devolverem os carros para seus respectivos pilotos, mas ainda havia um no meio deles que se negava a fazer isso com seu principal piloto: Bernie Ecclestone mandou colocar o número 2 em todos os BT50 em Kyalami, sinalizando que Nelson Piquet não participaria da prova. Era um golpe do inglês que alegava que uma noite no chão do hotel Sunnyside prejudicara a saúde do campeão.

Percebendo isso, Gilles Villeneuve volta a mobilizar seus colegas e uma nova greve é iminente. O próprio canadense levaria Nelson Piquet para exames no centro médico, onde acabaria liberado para correr. Bernie Ecclestone havia perdido mais uma batalha, mas não a guerra...

As multas ficaram entre US$ 5 mil e US$ 10 mil, mas o pior ainda estava por vir.

Niki Lauda havia percebido que os pilotos tinham perdido sua voz na Fórmula 1. Eram dois homens que dominavam tudo e podiam fazer aquilo que quisessem e, mesmo depois da demonstração de força em Kyalami, o austríaco viria a guerra ser perdida com a dissolução da GPDA e a criação da PRDA (Professional Racing Driver Association), uma versão bem menos sucedida daquela que ressurgiria com força após os fatídicos acontecimentos do 1º de maio de 1994.

Assim começava a temporada de 1982 da Fórmula 1. Sob calor infernal em Kyalami, com os pilotos fugindo de ônibus até um hotel onde dormiriam juntos (e no chão!) enquanto tentavam resolver um problema que poderia ter destruído aquilo que conhecemos como a década de ouro...

Há 35 anos...














Imagens tiradas do Google Imagens.

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