sexta-feira, 15 de maio de 2015

Equipe Memorável 30# - Automobiles Gonfaronnaises Sportives - Parte 6


Depois de uma temporada um pouco animadora em 1988, a AGS começava o ano de 1989 com novas ambições e desafios. Já sabendo que Philippe Streiff se manteria na equipe, agora eles deveriam procurar um piloto que ajudaria na situação financeira da equipe, e ao mesmo tempo fosse talentoso o bastante para colocar o carro na corrida.

Joachim Winkelhock havia sido campeão da F-3000 alemã, e havia sido chamado por várias outras equipes. Ele trazia consigo dois ótimos patrocinadores, a Camel e a Liqui Moly, e também o sobrenome que ainda estava famoso na época. Mesmo com a morte de seu irmão, Manfred, a F-1 colocava as forças alemãs em cima de Joachim, que ao seu lado teria Danner, Weidler e Schneider como coadjuvantes do país que estava prestes a se reunificar.

Dia 18 de janeiro de 1989, a AGS confirma a contratação de Joachim e também a chegada do engenheiro Claude Galopin, vindo da Ligier. Naquela semana havia surgido rumores da venda da equipe por apenas um franco, coisa de fazer rir, mas isso foi rapidamente desmentido, mas o que se sabia era que Henri Julien estava buscando parceiros, para que eles unissem as equipes, será que seria uma boa para a AGS?


Já havia sido anunciado que Streiff era um dos pilotos garantidos para as corridas de domingo, mas o estreante da AGS acabaria tendo que fazer a pré-qualificação. Essa seria a primeira vez que a equipe usaria dois carros, coisa que todas as outras equipes, menos a EuroBrun, fariam. O carro da equipe não estaria pronto até o GP Brasil, com isso a AGS devia torcer contra a evolução das outras equipes, para tentar alguma coisa no Rio.

Naquela época o inverno na Europa era rigoroso, diminuindo as chances de um testes ser realizado em pistas como Paul Ricard ou Estoril. No final dos anos 80 quase toda a pré-temporada era realizado em Jacarepaguá. Os primeiros dias embaixo de sol infernal foram normais para todas as equipes, incluindo a AGS, quem muito provavelmente perceberam o quão bom seria a sua temporada no lado do alemão.


Mais um dia começaria com os testes, a AGS manda Philippe Streiff para a pista com o ultrapassado JH23B. Já na volta rápida, o francês dá tudo de si e tentar forçar o máximo o fraco carro da equipe de Julien. Quando chega na curva do Cheirinho, Streiff atrasa muito o ponto de freada e acaba indo para fora da pista, mas antes disso decolou depois de tocar na zebra. Agora vocês já devem prever o que vai acontecer.

O carro da AGS voou na direção do guard-rail, que acabou sendo atravessado por Streiff que iniciou várias capotagens até parar, de cabeça para baixar e ensopado de gasosa. Outras duas pessoas se feriram, um bombeiro e um operário, mas nada muito sério em relação á Streiff, que depois de voltar a ver o mundo do lado correto, foi ajudado a sair do carro, mas as dores nos joelhos impossibilitaram uma caminhada muito longa.


Logo o socorro chegou. Até aí tudo bem, eles levaram ele ao centro médico do circuito e lá fizeram exames, que identificaram fraturas na clavícula e numa das omoplatas. Se fosse apenas isso a coisa não seria tão gravíssima, mas foi constatado uma lesão na coluna, coisa que poderia destruir a carreira de Streiff, que agora seria levado á Clinica São Vicente.

De helicóptero o francês foi transportado com cuidado, mas chegando ao "heliporto" em cima da clinica, percebeu-se que não havia as minímas condições para ser feita a aterrissagem, que foi feito em outro lugar, não muito longe da Clinica. Mas as ruas até lá eram de paralelepípedos, e o único método civilizado de leva-lo agora era de ambulância. Mesmo assim Streiff chegou no hospital...


Logo depois de chegar, foram feitos vários exames detalhados em Streiff. Os resultados chegaram no meio da tarde, e se constatou que aquelas lesões eram tão graves que era preciso colocar um aparelho de tração cervical imediatamente, mas por incrível que pareça, a Clinica não tinha, uma completa falta de organização naquele momento.

Streiff já começava a perder os movimentos de certas partes do corpo, e isso ia piorando a cada hora, até a chegada do aparelho, que veio lá de São Paulo. Rapidamente foi constatado a necessidade da cirurgia, mas os cirurgiões preferiam esperar. Dr. Giesta ligou para um ortopedista da Universidade de Paris, o Dr. Gerard Saillant, que afirmou que o corpo deveria ser levado imediatamente para Paris, Giesta não concordou e deu no que deu...


O próprio Dr. Giesta já falou sobre os acontecimentos: "Por incrível que pareça a determinação da equipe organizadora da Fórmula 1, que iria se realizar no Rio de Janeiro, os pilotos seriam atendidos, em caso de acidente em um Hospital da Cidade de São Paulo e não no Rio de Janeiro. Como havia dificuldade em relação ao tráfico aéreo em São Paulo – creio que uma greve parcial -. o piloto Streiff foi transportado para a São Vicente, para aguardar o momento de ser transportado para São Paulo, e como tal, ficou aos cuidados dos médicos contratados pelo Comissão Organizadora da Formula 1, médicos que o acompanharam do local do acidente até a Clínica. Foi o Prof. Gerard Saillant que após solicitação da Snra Streiff, conhecedor da minha experiência com o assunto, recomendou que ela entrasse em contato comigo, contato que foi feito cerca de 19:30 h. Quando examinei o piloto Streiff ele já estava com os quatro membros paralisados. De imediato tomei as providências cabíveis , convoquei o Dr.Paulo Niemayer para me auxiliar e, cerca das 22:00h, a lesão já estava reduzida e fixada e a medula descomprimida. Mas, o dano parcial já havia ocorrido. Tenho além do depoimento pessoal de Saillant, carta da Snra Streiff elogiando a minha presteza e a conduta que adotei. O tal aparelho que vinha de São Paulo, no meu entender não era a medida correta a adotar. Em relação aos 3 dias que teriam sido por mim propostos, se referiam à permanência do piloto após a cirurgia. È o que tenho a informar, como sincera contribuição para restaurar a verdade dos lamentáveis fatos ocorridos com o snr. Streiff.."


Continuando com os acontecimentos, Streiff só foi operado ás 10 da noite, e em uma situação precária, sem nenhum aparelho de ressonância magnética. A cirurgia era de alto risco, mas o francês foi forte e sobreviveu. Nos dias seguintes quem iria começar a acompanhar o caso era o Dr. Gerard Saillant, que a pedido da família Streiff estaria lá.

Agora começaria um verdadeiro escândalo entre Brasil e França, isso se não bastasse a futuro guerra que seria implantada dentro da McLaren após o GP de San Marino. A esposa de Streiff, Renée Streiff, sempre estava fazendo duras críticas ao modo de atendimento prestado ao seu marido, que ainda continuava do mesmo jeito, no estado grava, mas estável.


Na manhã do dia 16, o Dr. Saillant avaliou o estado de seu paciente, e concluiu que ele foi prejudicado pela demora da cirurgia e pela forma em que foi transportado. A treta entre Brasil e França aumentaria ainda mais no dia 18. Na noite do dia 17, Streiff teve uma rápida diminuição dos batimentos cardíacos, que logo foram controlados. Mas na manhã seguintes as notícias na França era que o piloto havia tido um ataque cardíaco, que até mesmo um dos médicos havia desmaiado. Logo o Dr Giesta desmentiu o caso

Nesse dia 18 haveria boas notícias para Streiff e para qualquer médico no Brasil e na França. Ele voltaria a sentir o tendão de Aquiles, e mais tarde seria transportado para a França em uma avião equipado com uma UTI. O dia 19 de março era quase celebrado pelos médicos franceses, que viram Streiff ter alta e ser levado de volta para casa. Já que saiu á tarde e ainda viu seu avião fazer duas paradas, Philippe só chegou na França na manhã do dia 20.

Streiff ao lado de Pironi

Streiff teria pouca coisa para se preocupar no hospital francês, com todos os equipamentos prontos para qualquer acontecimento com ele. Já no Brasil a treta ainda continuava, o acidente virou caso de policia porque pessoas saíram feridas. Foi feita uma perícia nos restos da AGS de Streiff, e isso acabou dando em nada, da mesma forma o pedido feito ao mecânico-chefe... 

A única verdade era que aquilo tinha acabado, e que todo mundo deveria rezar e torcer que Streiff voltasse a andar, coisa que infelizmente não aconteceu, aquilo era uma tragédia para toda a F-1, que perdia um dos seus mais talentosos pilotos. Uma coisa que digo pelo que eu li e vi, é que a culpa foi de Philippe Streiff, não foi um erro mecânico e sim um erro humano, não um erro feito por querer, e sim na busca da volta mais rápida, isso é quase a mesma coisa que aconteceu com Senna, uma fatalidade....


O Dr. Giesa também falou mais um pouco: "Para restabelecer a verdade do que ocorreu com o piloto Philippe Streiff quero informar: 1) só tomei conhecimento da presença do piloto na Clínica São Vicente cerca de 19:30 horas, por solicitação da senhora Streiff e indicação do médico Gerard Saillant, diretamente de Paris. 2) o Sr. Streiff, quando o examinei pela 1ª vez, e este foi o meu primeiro contato com ele, já estava com os 4 membros paralisados, respirando com dificuldade. 3)Streiff estava então aos cuidados dos médicos contratados pela organização da prova de Fórmula 1, os quais aguardavam condições de transporta-lo para São Paulo. 4) fui eu que mostrei a impossibilidade de tal aventura naquele momento e, com autorização da Snra Streiff o removi para o Centro Cirúrgico, onde descomprimi a medula e fixei a fratura-luxação da coluna cervical. Sem esta minha pronta intervenção provavelmente o Sr. Streiff não teria sobrevivido ou a sequela teria sido muito maior. 5) realmente, até hoje, não entendo por que ao longo de uma prova automobilística realizada no Rio de Janeiro, os acidentados deveriam ser removidos para um Hospital em São Paulo. 6) A remoção para São Vicente, o Hospital mais próximo do local do acidente foi explicada pela equipe contratada pela Fórmula 1, como medida transitória até que houvesse condições de pouso e decolagem da aeronave que viria de São Paulo, e estava retida por questões de tráfico aéreo. Finalmente, tenho a comentar: não possuo informação suficiente para emitir parecer sobre acertos e equívocos em relação à conduta adotada entre o momento do acidente e a hora em que tomei conhecimento da estada de . Streiff e assumi o caso,19:30h daquele fatídico dia. Possuo carta da Snra Streiff e comentários Dr. Saillant, elogiando a minha atuação e meus cuidados e da minha equipe, com destaque para a presteza do atendimento que prestamos quando solicitados particpar do caso. É só consultar reportagem da Revista Paris Match,da época.
Carlos Giesta"


Agora a AGS estava abalada, mas tinha que buscar um novo piloto, pelo menos para depois do GP Brasil. Mas isso é apenas na próxima parte desse mega texto, que eu pego meus conhecimentos da AGS e misturo com outras notícias da época e também de alguns texto, inclusive a do Banderia Verde, que me ajuda a confirmar todos os fatos.

Prestes a iniciar-se, a temporada de 1989 estava com a luz amarela acessa, para qualquer incidente mais grave que poderia acontecer. A questão da segurança voltava de vez na F-1, coisa que não era tão debatida desde a morte de Elio de Angelis, que hoje faz 29 anos. Outra triste notícia que acabo de ler é a morte de Renzo Zorzi, aos 68 anos :(

Imagens tiradas do Google Imagens

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